Decorreu pelas 17h00, na sede da AAIF, o 10º Encontro Cultural que contou com a exposição fotográfica "Apanha do Sargaço", da Câmara Municipal das Lajes, bem como a intervenção da Doutora Ana Neto, docente do Departamento de Biologia da Universidade dos Açores. Foram ainda exibidos 3 vídeos integrantes do projecto " Receitas do Calhau" da autoria da Doutora Sónia Matos (Universidade de Edimburgo), além da participação dos presentes que partilharam as suas memórias e testemunhos com esta temática.
A AAIF foi fundada a 19 de fevereiro de 2003 e declarada de utilidade pública a 21 de setembro de 2009 pelo Presidente do Governo Regional, Carlos César. A AAIF tem por objeto desenvolver atividades que promovam o bem estar dos naturais das Flores e daqueles com quem vivem, bem como incrementar o intercâmbio com a ilha das Flores, realizando ações culturais, sociais ou desportivas e promovendo a própria ilha na globalidade do seu contexto regional, nacional e ultraperiférico da União Europeia.
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10º Encontro Cultural - 16 abril | 17h00
A Associação Amigos da ilha das Flores promove no próximo dia 16 de abril o seu 10º Encontro Cultural, que este ano será subordinado à temática “SARGAÇOS E OUTRAS MARESIAS: Das estórias e memórias de Ocidente à biodiversidade, riqueza e potencial das algas”.
A sessão de abertura está marcada para as 17 horas e o encontro começa com uma intervenção da Doutora Ana Neto, docente do Departamento de Biologia da Universidade dos Açores, que falará sobre “Algas marinhas - potencial nutricional e apontamentos sobre a sua colheita, limpeza e conservação”.
Segue-se a projeção do vídeo “Receitas do Calhau”, da Doutora Sónia Matos (Universidade de Edimburgo / Universidade dos Açores) e a partilha de testemunhos que contará com a presença de pessoas que de alguma forma estiveram ligadas à apanha e ao negócio do sargaço na ilha das Flores, seguindo-se um tempo de debate antes da sessão de encerramento prevista para as 18h30.
O Encontro decorre na sede social da AAIF, sita ao número 89 da Rua do Peru em Ponta Delgada, e é aberto ao público em geral, pelo que qualquer pessoa poderá assistir e participara no mesmo.
Esta é a décima edição do Encontro Cultural promovido pela AAIF, que se enquadra no seu plano de atividades para 2016 e vai de encontro aos seus objetivos de desenvolver atividades que promovam o bem estar dos naturais das Flores e daqueles com quem vivem, incrementando o intercâmbio com a ilha das Flores, realizando ações culturais, sociais ou desportivas e promovendo a própria ilha na globalidade do seu contexto regional, nacional e ultraperiférico da União Europeia.
Nas edições anteriores do Encontro Cultural foram debatidos temas tão diversos como a saúde na ilha das Flores, fortificações militares e geoturimo, património histórico, cultural e ambiental da ilha das Flores, História da ilha e dupla ultraperificidade, a economia e o futuro da ilha, a sustentabilidade energética da ilha das Flores, marinheiros do extremo ocidental da Europa e o património baleeiro, florentinos que se distinguiram ou a experiência associativa e migrante dentro do próprio arquipélago dos Açores.
2015.04.18 - 9º Encontro Cultural
A Associação Amigos da Ilha das Flores promoveu o seu 9º Encontro Cultural no dia 18 de abril, subordinado à temática “Das fortificações militares ao geoturismo: património histórico, cultural e ambiental da ilha das Flores”.
Brevemente publicaremos as conclusões do mesmo.
O nosso muito obrigada a todos os oradores e participantes, que contribuíram para o sucesso desta atividade.
9º Encontro Cultural da AAIF
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| (Clicar na imagem para ampliar) |
A Associação Amigos da Ilha das Flores promove no próximo dia 18 de abril, pelas 17horas, o seu 9º Encontro Cultural, este ano subordinado à temática “Das fortificações militares ao geoturismo: património histórico, cultural e ambiental da ilha das Flores”.
O Encontro, que decorre na sede social da AAIF sita ao nº 89 da Rua do Peru em Ponta Delgada, é composto por intervenções de quatro oradores distintos e sobre diferentes aspetos da ilha das Flores.
A primeira intervenção, "A fortificação da Idade Moderna nos Açores: o caso da ilha das Flores", será proferida por Sérgio Rezendes, professor e investigador, seguindo-se a exibição do filme de animação “História dos Açores”, de Tiago Rosas e Victor Descalzo, vencedor do ‘Prémio Regional do Público’ no II Panazorean - Festival Internacional de Cinema.
"Flora e Vegetação da Ilha das Flores" será a intervenção proferida por Luís Silva, docente do Departamento de Biologia da Universidade dos Açores, enquanto que “Património Geológico da ilha das Flores: valorização e usufruto” será a temática das intervenções de Eva Lima e Marisa Machado, do Geoparque Açores.
Segue-se um tempo de debate a anteceder o encerramento com a entrega de prémios do Torneio de Cartas da AAIF (sueca e King).
Recorde-se que em anos anteriores foram abordadas temáticas como a Saúde na ilha das Flores, a História da ilha e a dupla ultraperificidade, a economia e o futuro da ilha, a sustentabilidade energética da ilha das Flores, marinheiros do extremo ocidental da Europa e o património baleeiro, florentinos que se distinguiram ou a experiência associativa e migrante dentro do próprio arquipélago dos Açores.
Esta é a 9ª edição do Encontro Cultural que se enquadra no Plano de Atividades da AAIF para 2015 e vai de encontro aos seus objetivos de desenvolver atividades que promovam o bem estar dos naturais das Flores e daqueles com quem vivem, incrementando o intercâmbio com a ilha das Flores, realizando ações culturais, sociais ou desportivas e promovendo a própria ilha na globalidade do seu contexto regional, nacional e ultraperiférico da União Europeia.
O 9º Encontro Cultural da Ilha das Flores integra ainda a programação do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, que se assinala a 18 de abril, sob o lema ‘ Conhecer, Explorar, Partilhar’, tendo como parceiros o Geoparque Açores, Universidade dos Açores, Colégio do Castanheiro e o Museu Militar dos Açores.
A entrada é livre e aberta a toda comunidade e a todos os interessados.
8º Encontro Cultural - Contributo AAIF "Projeto social de apoio a doentes deslocados da ilha das Flores"
Em 2013 a sede da AAIF esteve aberta o ano inteiro à exceção dos habituais períodos de férias (Santo Cristo/Sopas da Associação e mês de Agosto) para receber os utentes deslocados da ilha das Flores.
No total, a AAIF prestou auxílio a 217 utentes e acompanhantes, menos 7 do que no ano anterior, ocupando no total 111 quartos e 624 noites. O período médio de estadia é de 5 dias.
Analisando a distribuição por meses, como já vem sendo hábito, os meses com menos procura são os meses de Maio e Dezembro, já os meses de maior número de entradas são os de Setembro, Outubro e Novembro.
Estimando um valor de 20,00€ por noite, as estadias na sede da Associação representam uma poupança de 12.480,00 € em alojamento por parte dos habitantes da ilha das Flores.
Esta poupança é possível graças aos protocolos celebrados entre a AAIF e as duas Câmaras Municipais, Lajes e Santa Cruz, protocolos estes que contemplam a estadia de forma gratuita e consequente utilização dos cómodos da casa (cozinha, casas de banho, sala de jantar e sala de estar, com a utilização de televisão e restantes equipamentos existentes nas instalações).
Desde 2005 foram hospedadas 1233 pessoas, sendo que os 217 representam 18% deste total.
Dos 217, 71% (154) são oriundos do Concelho de Santa Cruz e os restantes 29% (63) do Concelho das Lajes.
Como se pode ver no gráfico abaixo, regista-se algum equilíbrio no que concerne à distribuição por sexo, 51% (111) são do sexo feminino e 49% (106) do sexo masculino.
(Informação constante do Relatório de Atividades 2013 da AAIF)
8º Encontro Cultural - Contributo de João Maria Barcelos "A Saúde na Ilha das Flores - um dos transportes de doentes de outrora"
Até cerca de meados do século passado, as comunicações terrestres na Ilha das Flores eram muito precárias. Algumas freguesias estavam muito isoladas, fazendo-se a sua comunicação entre elas apenas por via marítima ou, para quem tinha boas pernas, a pé, por sinuosos atalhos através dos matos. A freguesia onde nasci, Ponta Delgada, era uma delas. Foi necessário os Franceses necessitarem de boas comunicações para a edificação e a manutenção dos seus Postos de Observação, isto já década de sessenta, para que se abrisse uma estrada alcatroada até aos Cedros, onde terminava a estrada de ligação a Santa Cruz.
Até essa data os transportes eram marítimos, em pequenas lanchas movidas a remos e à vela, mais tarde equipadas com fracos motores, que mal as arrastavam.
Nessa altura não havia tantos doentes como agora, até graças à seleção natural da espécie — os fracos não resistiam à doença e rapidamente morriam, geralmente ainda muito novos. Mas havia, tal como agora, claro, as doenças agudas, muitas delas fulminantes, outras operáveis, tal como a apendicite aguda, por exemplo.
Nessas freguesias, quando alguém adoecia subitamente, com uma apendicite aguda, por exemplo, se o Sol já adormecera e/ou não era possível o seu transporte por mar, era levada até ao Hospital numa espécie de machila — fazendo lembrar a que antigamente se usava na Índia e na África —, às vezes improvisada no momento, a que se chamava “Rede”.
A Rede era feita com cobertores (ou outro tecido resistente), atados numa vara, quase sempre uma cana grossa de bambu, por ser oca e mais leve, sendo transportada através dos atalhos do Mato por dois homens, um à frente, outro atrás, em passo célere e ritmado. Às vezes iam quatro, para se revezarem, dois a dois, particularmente quando o doente era mais pesado. À Rede, nas Flores também se lhe chamava “Palanca”, nome devido ao facto de se dar o mesmo nome à vara onde se amarravam os cobertores — ‘palanca, com o significado de barrote, tranca, dizem os dicionários ser regionalismo dos Açores, não se ouve no resto do país, mas na Madeira tem o mesmo significado. Por isso, a este tipo de transporte havia quem lhe chamasse “à palanca” — “O pobre Jesé Criqui — Dês le dê Céu! — foi levado à palanca, numa rede, até Santa Cruz mas, coitado, quando chegou ao Hospital já nã tinha tafulho!...”
Como bem se sabe, a apendicite aguda é acompanhada quase sempre de uma inflamação dos tecidos vizinhos do apêndice cecal, da membrana chamada peritoneu, inflamação a que se dá o nome de peritonite, e que causa dores, mais ou menos intensas consoante a gravidade. Ora, acontecia, devido à ingremidade dos atalhos, que o doente ia sofrendo os balanços da rede, que lhe avivavam as dores, e bem cramava e punha as mãos ao alto para que a viagem em breve chegasse a seu termo...
Mas, a Rede, como forma de transporte de pessoas, não foi exclusiva da nossa Ilha, claro. Era utilizada por muitas bandas, até no Brasil, onde senhores e damas se faziam comodamente transportar, às costas de escravos.
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| Rede de transporte no Brasil |
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| Senhor numa rede transportada por escravos |
Mas foi certamente na Madeira, pelas suas exigências orográficas, quando na Ilha havia apenas caminhos e atalhos entre as povoações, os chamados “Caminhos Reais”, que o uso da Rede mais se difundiu, sendo algumas delas verdadeiras obras de arte. Eram as chamadas ‘Redes de luxo’, destinadas ao transporte de turistas. Feitas de um tecido muito resistente, então fabricado na Ilha, chegou até a haver algumas forradas de pele, como ainda se pode admirar numa fotografia do Museu Vicentes do Funchal.
Rede de luxo forrada a pele (Museu VICENTES)
A Rede de luxo, diferente da Rede de transporte de doentes, era provida de um toldo e de cortinas, para resguardo do vento e do sol, tendo no eu interior um coxim e um cobertor, para melhor conforto do turista.
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| Transporte de rede na Madeira |
O uso da Rede na Madeira perdurou até ao século XX. O escritor Raul Brandão, quando visitou a Madeira em 1924, escreveu no livrinho intitulado As Ilhas Desconhecidas: “Para viajar no interior da Madeira só há dois processos cómodos — o da rede suspensa por uma vara às costas de dois homens que caminham apegando-se a paus, e o carro de bois. Mas a rede faz sono, o carro é melhor.”
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| Transporte de Rede na Madeira (Foto Figueiras) |
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| Rede, em 1914 (Foto Perestrellos) |
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| Rede, em avançado século XX |
Voltando ao passado da nossa Ilha, contavam-me os mais idosos que, nessas caminhadas de emergência até à Vila, às vezes, no meio do Mato, acontecia o desinfeliz do passageiro calar a cramação. Ao se aperceberem que já se passara para o outro Mundo, voltavam a carregá-lo, invertiam a marcha e levavam-no de volta à freguesia, pois não só seria embaraçoso chegar à Vila com um cadáver, como era maneira de evitar toda a complicada burocracia do Tribunal.
E hoje fala-se em Crise...
Tempos difíceis eram os de antigamente, onde havia gente que nunca sequer saíra da sua freguesia, também pela sorte de nunca ter tido necessidade de ser transportada numa Rede até ao Hospital...
Desejo a todos os conterrâneos presentes uma boa continuação do Encontro Cultural de 2014, agradecendo à Direção da Associação de Amigos da Ilha das Flores o amável convite para poder contribuir com este modesto texto relacionado este antigo e curioso meio de transporte.
J. M. Soares de Barcelos
10-04-2014
8º Encontro Cultural - Contributo de Regina Meireles "Breve nota sobre a Saúde na ilha das Flores"
(As notas referentes aos médicos mais antigos que nasceram ou trabalharam nas Flores, foram cedidas pelo Sr. João António Vieira Gomes e pelo Sr. José Arlindo Trigueiro, reconhecidos investigadores florentinos).
A história da saúde da ilha das Flores reflecte bem a insularidade do Arquipélago e conta-se pela mão de todos aqueles que contrariam ventos e marés numa tentativa de salvar vidas, curar doenças e melhorar a qualidade de vida a todos os que se encontravam na ilha.
Todos se recordarão de marcos emblemáticos como a construção do centro de saúde, a marcante passagem da Base francesa, a construção da pista de aviação e do porto. Houve tempos em que os florentinos nasciam nas Flores e depois deixaram de nascer. Houve ainda um tempo em que até morrer era uma dificuldade: em que os caixões se faziam por medida por um carpinteiro que já devia ter “de olho” as medidas dos mais idosos e enfermos; depois venderam-se caixões em supermercados, até que se construíram as casas funerárias.
Todos estes acontecimentos marcaram profundamente os cuidados de saúde na nossa ilha e as gentes que por eles passaram.
Actualmente nas Flores, existe pelo menos um médico sempre em permanência na ilha, o Centro de Saúde possui uma equipa multidisciplinar e os utentes podem usufruir de consultas médicas em algumas freguesias como Lajes, Fazenda, Fajã Grande e Ponta Delgada. Existem cuidados ao domicílio e dois lares de idosos da Santa casa da Misericórdia. Viver nas Flores, é sem dúvida mais fácil do que foi no passado mas nos dias em que são necessárias evacuações aéreas, os corações ficam apertados e a ilha torna-se novamente uma “prisão”. Felizmente os florentinos têm contado ao longo dos anos com o apoio inquestionável da Força Aérea que tem como nobre missão a busca e salvamento bem como as evacuações médicas. São muitos os que viveram graças à coragem e competência destes profissionais por quem os florentinos sentem uma grande gratidão.
Temos consciência de que garantir uma permanente e eficaz prestação de cuidados de saúde em ilhas como Flores e Corvo não é fácil nem barato mas estes cuidados não se podem medir apenas em números. São um bem essencial e um indicador de desenvolvimento da população. Além disso, cada um poderá expressar o conforto que sente por saber que tem um médico e um hospital por perto ou ainda um avião militar que possa servir de ponte aérea em situações de emergência.
Mas estas breves notas incidem sobre um período longínquo em que a ilha permanecia fechada sobre si mesma por longos períodos e em que só o espírito de missão de alguns médicos e a resiliência de muitos cidadãos anónimos da ilha contribuíram para a protecção e melhoria da saúde comunitária. Cada um deles, à sua maneira, fez toda a diferença para aqueles que sentiram o conforto e o benefício da sua presença.
Estes homens e mulheres fazem parte da nossa história e são parte inegável da açorianidade. Que sirva este Encontro Cultural para os homenagear e também para analisar o caminho que percorremos e, sobretudo para afinarmos o rumo de um futuro que talvez passe pelas novas tecnologias como o cabo de fibra óptica e a telemedicina.
O primeiro “médico” que a história menciona na Ilha das Flores foi João Enes, morador na ilha e que foi autorizado por D. Manuel I, por carta de 8 de Junho de 1524 para que pudesse usar “da ciência e arte de cirurgia para todos os nosso reinos e senhorios, por ser idóneo e pertencente para usar e praticar da dita ciência e arte da cirurgia”.
Note-se que um cirurgião da época não tinha qualquer semelhança com a especialidade como a conhecemos hoje. Tratavam-se de indivíduos curiosos e estudiosos dessa área, que não tinham ao seu dispor quase meios nenhuns e que realizavam procedimentos num ambiente sem condições de higiene e sem os fármacos a que estamos habituados (Lembre-se que a penicilina apenas foi descoberta em 1928!). Estes indivíduos eram muitas vezes designados por “sangradores”.
Em finais do sec. XVI, Gaspar Frutuoso refere-se a um outro “cirurgião”, Álvaro Rodrigues a quem tinha pertencido o “pico muito alto” que está junto à Vila de Santa Cruz (Monte das Cruzes), que passara depois a seu filho, Gaspar Rodrigues, acrescentando que “não houve nem há outros mestres na terra nos dois séculos seguintes”.
Existem também referências a dois cirurgiões que terão exercido na ilha: a 4 de Setembro de 1777 era cirurgião em Santa Cruz Manuel Vieira Brasil e, nessa mesma vila residia também, em 1823, António José do Amaral, de 59 anos de idade, cirurgião aprovado por Sua majestade”.
Em 1807, por determinação régia, deslocou-se às Flores o cirurgião João Pedro Soares Freire para vacinar o povo contra a varíola. Esta campanha de vacinação terá durado 180 dias e custado aos Municípios da ilha 270$000 Reis.
A situação da saúde nas Flores melhorou consideravelmente a partir de 1822, altura em que se radicou na ilha o Dr James Mackay, que ficou na memória das gentes da ilha como o “Doutor Inglês” e que até 1874 – data do seu falecimento – se ocupou com eficácia dos cuidados de saúde da ilha inteira.
O Doutor Inglês nasceu afinal na Escócia a 5 de Maio de 1790. Cursou Medicina na Universidade de Edinburgh, foi capitão dos Reais Dragões de sua Majestade e serviu na Guerra Peninsular.
A primeira vez que passou pela ilha das Flores, em 1815, era médico da Corveta “Northumberland”, quando regressava a Londres depois de ter acompanhado Napoleão ao exílio à ilha de Santa Helena, no sul do Atlântico.
Nessa altura grassava uma doença epidémica nas Flores e James Mackay terá consultado todos quanto s a ele recorreram.
Note-se que atendendo ao grau de isolamento a que a ilha estava votada, as epidemias que aí surgiam, deviam-se quase na sua totalidade, a contactos com navios que aí escalavam e que haviam escalado antes outros portos trazendo essas epidemias.
Regressou posteriormente às Flores, em 1822, com o desejo de ali passar o resto da sua vida com a respectiva família. A 30 de Julho de 1825, após várias diligências, obteve a carta régia autorizando o exercício de Medicina e Portugal. O Dr Mackay viveu o resto dos seus dias nas Flores, onde está sepultado (no cemitério da Vila de Santa Cruz) e os seus descendentes contribuíram para obras de grande empreendedorismo na ilha.
No ano de 1843, a freguesia do Lajedo foi atingida por um flagelo de bexigas, que num espaço de 3 a 4 meses, tirou a vida a 18 pessoas.
O contágio deveu-se ao contacto com tripulação de uma galera americana, com um carregamento de sal que no Lajedo aportou com água aberta (antiga expressão utilizada nas Flores na época e que significa “arrombado”) vinda do Porto de Cádiz, no sul de Espanha.
O então Governador Civil da Horta, Vieira Santa Rita entendeu por bem enviar para as Flores um médico.
Em Outubro de 1848, na freguesia de Ponta Delgada, ocorreu outro episódio de bexigas (também chamadas “bexigas loucas” ou “bexigas pretas”), pelo que a Junta Geral do Distrito propôs ao Governo que deslocasse para as Flores um cirurgião da Armada Real.
Entre vários médicos que passaram pela ilha das Flores encontra-se um Oficial ao serviço da saúde da Marinha Portuguesa. Fixou-se na ilha, onde veio a falecer. Trata-se do Doutor Júlio César Cayres Camacho, que tomou posse do cargo de Guarda-Mor da saúde a 4 de Fevereiro de 1887, servindo toda a ilha até à data do seu falecimento, em Abril de 1906.
De Agosto de 1806 a Maio de 1924, a assistência médica em Santa Cruz esteve a cargo do Dr José Jacinto Armas da Silveira, natural desta ilha e que desempenhou com relevo os cargos de facultativo municipal, médico do Hospital e Guarda-Mor de Saúde da ilha, prestando serviço de saúde a toda a ilha.
Foi músico de relevo mesmo no tempo de estudante e Lisboa e dizia-se que tocou nas orquestras dos Teatros nacionais de São Carlos e Dona Maria.
Em 1915, fundou com um grupo de cidadãos a Filarmónica que, mais tarde, tomou o seu nome “Armas da Silveira” na qual participaram pessoas de vários pontos da ilha, com o Maurício António Fraga, das Lajes e Roberto de Mesquita que era primo do Dr Armas da Silveira. Faleceu a 9 de Maio de 1924.
Entre outros médicos florentinos que se distinguiram, destacamos o Dr. Theophilo Ferreira (1840-1894). Nasceu e viveu até aos 16 anos nas Flores. Fez o ensino secundário na Ilha de S. Miguel, onde fez grande amizade com Teófilo de Braga, com quem fundou o jornal “O Meteoro”. Tirou o curso de professor primário e lecionou na Ribeira Grande. Licenciou-se em medicina pela escola médica de Lisboa em 1878.
Também se dedicou à política: foi vereador da Câmara Municipal de Lisboa e deputado pelo círculo da Horta (legislatura de 1890 a 1892. Os seus discursos parlamentares foram considerados os mais notáveis da época.
Dr. Nestor Augusto Xavier de Mesquita (1854-1924) Nasceu na vila de Santa Cruz. Formou-se em medicina e cirurgia pela escola médico cirúrgica de Lisboa em Dezembro de 1884. Exerceu a sua profissão na cidade da Horta.
Dr. José de Freitas Pimentel (1894-1920) Nasceu na freguesia da Fazenda das Lajes. Terminou o curso de medicina em 1917 com nota máxima e apenas 23 anos de idade. Em Abril de 1919 regressou às Flores, tendo aberto consultório na vila das Lajes. Em Setembro do mesmo ano abriu consultório na cidade da Horta, onde foi muito acarinhado pelos doentes. Foi chamado à ilha do Pico em Dezembro porque havia um surto peste pneumónica e todos os seus colegas haviam recusado dar assistência aos doentes por ser uma epidemia extremamente contagiosa. Por querer ajudar o próximo faleceu nessa mesma ilha, com 25 anos, no dia 1 de janeiro de 1920.
Dr. António de Freitas Pimentel (1901-1981). Irmão do Dr. José de Freitas Pimentel. Nasceu na freguesia da Fazenda das Lajes. Terminou o curso em 1929 pela universidade de medicina de Lisboa. Radicou-se na cidade da Horta com a sua esposa Dr.ª Maria Francisca, também cirurgiã. Ambos trataram centenas de florentinos de forma gratuita. Ao longo da sua vida visitou regularmente as Flores, vendo sempre muitos doentes. Dedicou-se também à política e exerceu importantes cargos, destacando-se o período em que foi foi Governador Civil do Distrito da Horta.
Dr. Horácio Carvalho Flores (1931- 2012)
Nasceu na Vila de Santa Cruz. Frequentou a universidade de Coimbra durante os 3 primeiros anos de curso e os restantes na universidade de Lisboa. Terminou o curso em 1958 e especializou-se em cirurgia. Foi Director do Serviço de Cirurgia do Hospital de Beja e Director do mesmo Hospital.
Para finalizar, não poderia deixar de referir duas pessoas de um passado bem mais recente que se distinguiram no apoio à população da ilha das Flores e também do Corvo, no âmbito dos cuidados de saúde. Trata-se de Maria Antónia de Freitas Fraga, conhecida por Menina Antónia e o Mestre José Augusto.
Maria Antónia de Freitas Fraga (1918-1996)
Nasceu na vila das Lajes das Flores. Descendente de importantes famílias florentinas no sector empresarial. O pai Maurício António de Fraga fundador duma empresa com o seu nome, que foi na primeira metade do Século XX uma das maiores e mais importantes empresas das Flores. A mãe, Irene Jerónimo de Freitas, era neta de António de Freitas (conhecido por “pirata do Mosteiro”), fundador da Igreja e do Passal da freguesia do Mosteiro depois de ter voltado da China para onde partira clandestino e onde acumulou avultada fortuna como armador.
Maria Antónia Fraga concluiu com distinção a instrução primária na escola das Lajes. No ano de 1932 foi para Lisboa para continuar a estudar. No Liceu Pedro Nunes concluiu o curso secundário, matriculando-se seguidamente, na Faculdade de Farmácia de Lisboa, tornando-se numa das primeiras mulheres das Flores a frequentar uma universidade.
Por motivos de saúde teve de regressar às Flores no final do 4º ano. Não ter terminado o curso foi uma mágoa que a acompanhou durante a vida inteira.
Como diz o povo há males que vêm por bem, porque Maria Antónia abriu uma drogaria na vila das Lajes num período de grandes carências financeiras, com a inexistência total de comparticipações oficiais de medicamentos. Aos poucos foi percebendo a quantidade de pessoas que não tinha o mínimo de possibilidades financeiras para a aquisição de fármacos, e tornou-se então no anjo da guarda dos pobres, oferecendo medicamentos, medindo tensões, aplicando injecções, ajudando as crianças a nascer e confortando as famílias enlutadas. Assim era vê-la a deslocar-se a grandes distâncias, quase sempre a pé, indo de casa em casa, nas Lajes, Fazenda, Lomba, chegando a ir ao Mosteiro e ao Lajedo.
Conhecida carinhosamente por “Menina Antónia“, pelo facto de não ter casado, Maria Antónia Fraga foi médica, enfermeira, conselheira, amiga, benemérita e merece um espaço muito importante nas páginas da história da saúde da Ilha das Flores e na nossa memória colectiva.
Mestre José Augusto (1028 – 2006)
No dia 26 de Outubro de 1928 na Vila de Santa Cruz das Flores nasceu José Augusto Lopes. Com catorze anos de idade fixou residência na Vila das Lajes e aos quinze anos, já atravessava o canal Flores – Corvo.
Ao longo da sua vida adquiriu mais de duas dezenas de embarcações.
Trabalhou na baleação, na pesca e nas cargas e descargas de navios.
Com a chegada dos Franceses às Flores em 1964, o Mestre José Augusto voltou a fixar residência em Santa Cruz, uma vez que todas as cargas respeitantes à base seriam descarregadas nesse porto. O negócio prosperou permitindo-lhe desenvolver a sua frota de embarcações e criar diversos postos de trabalho que contribuíram para o crescimento económico da ilha ao longo de muitos anos.
Transportou durante dezenas de anos correio, carga, e milhares de passageiros entre as Flores e o Corvo. Nas suas lanchas, passaram as mais altas individualidades da vida Portuguesa e Açoriana.
Mas o Mestre José Augusto marcou realmente a diferença,no Grupo Ocidental, ao arriscar muitas vezes a sua vida para salvar outras, a caminho do Centro de Saúde das Flores, especialmente no tempo em que não havia médico no Corvo e a pista de aviação daquela Ilha não passava de um sonho.
Pelo esforço, coragem e riscos por que passou nessas viagens, foi condecorado em 10 de Junho de 1994 pelo Sr. Presidente da República Dr. Mário Soares, com o grau de oficial da ordem de mérito.
Este verdadeiro lobo-do-mar, partiu a 16 de Dezembro de 2006 mas ainda está bem presente na memória das gentes do Grupo ocidental.
Para concluir, pode-se dizer que actualmente os florentinos beneficiam de ligações aéreas diárias e de um sistema regional de saúde que permite responder, com mais ou menos celeridade, às suas necessidades de saúde. A ilha está mais aberta ao mundo do que nunca mas a doença é e será sempre uma fragilidade humana, por isso aproveito para me despedir homenageando a Associação Amigos da Ilha das Flores, que há 11 anos desempenha uma nobre missão ao acolher os doentes carenciados, deslocados a São Miguel por motivos de saúde, funcionando como um “pedacinho de casa”, quando dela mais se precisa.
Um bem-haja a todos,
Regina Meireles
Abril de 2014
2014.04.12 - 8º Encontro Cultural
A 8ª edição do Encontro Cultural decorreu na sede da AAIF na tarde do dia 12 de abril e contou com dois momentos diferentes: um primeiro com um espaço de debate, reflexão e partilha sobre o estado da Saúde na ilha das Flores e um segundo com um concurso de sobremesas com fins solidários.
Foi decidido que as receitas provenientes deste concurso reverteriam num 'cabaz de compras' a ser oferecido a uma família carenciada das Flores. Para o efeito realizou-se um sorteio entre as onze freguesias da ilha, cujo resultado foi a freguesia dos Cedros. Deste modo, a respetiva Junta de Freguesia será contactada para colaborar com a AAIF na entrega do cabaz a uma família carenciada residente nos Cedros.
O nosso agradecimento a todos os que participaram e a todos quantos tornaram possível este encontro, em especial aos nossos conterrâneos Susana Soares, Regina Meireles e João Maria Barcelos e também à Força Aérea Portuguesa, na pessoa do Comandante da Base Aérea nº 4 (Base das Lajes), Coronel Eduardo Faria, pelos seus preciosos contributos.
| Marisa Pereira a ler o contributo de Regina Meireles "Breve nota sobre a Saúde na Ilha das Flores" |
| Contributo da Base Aérea nº 4 (Base das Lajes), com intervenção do seu Comandante, Coronel Eduardo Faria |
| Contributo de Susana Soares, com reportagem sobre a temática do encontro cultural |
| Visionamento da reportagem de Susana Soares sobre "A Saúde na ilha das Flores: Retrospetiva histórica e desafios futuros" |
| Roberto Serpa a ler o contributo de João Maria Barcelos sobre "A Saúde na Ilha das Flores — transportes de doentes de outrora" |
CONCURSO DE SOBREMESAS COM FINS SOLIDÁRIOS
| Um extra com o sr Nascimento |
| Entrega de prémio 1º classificado 'Categoria Bolos' - Bolo de agrião |
| Entrega de prémio 1º classificado 'Categoria Doces de Colher' - Pavlova de morango |
| Prémios do concurso de sobremesas |
SOBREMESAS VENCEDORAS
| Vencedor da Categoria 1 (Bolos) - "Bolo de Agrião" |
| Vencedor da Categoria 2 (Doces de colher) - "Pavlova de morango" |
| Vencedor da Categoria 3 (Doces miúdos) - "Suspirinhos" |
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