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Intervenção de Herberto Gomes na apresentação do livro "A Renúncia" de José Garcia Costa



"No lançamento d’«A Renúncia», do José da Costa.
Boa noite, quero antes de mais agradecer ao José da Costa o convite para participar neste lançamento do seu primeiro romance. Um convite que me honra e ao mesmo tempo me deixa um pouco «desconfortável» pois nunca me vi neste papel.
Como ponto prévio quero deixar claro que estou aqui porque sou amigo do José da Costa, e já agora porque gosto muito das Flores, onde vivi um ano, e porque me sinto muito bem sempre que venho a esta casa.
Quando o José da Costa me convidou pedi-lhe alguns dados biográficos e não estava à espera de me surpreender tanto com o seu percurso de vida, isto apesar de termos sido colegas no liceu da Horta no final dos anos 70 e dos nossos percursos «quase se terem cruzado» muito mais vezes.
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Comecemos então pela apresentação do autor.
Primeiro acho que é importante dizer que o Zé, é 100% florentino pelo coração e 50% florentino pelo ADN, pois nasceu na ilha azul, a cinco dias do Natal de 1959, porque na altura a mãe natural daquela ilha estava lá a dar escola.
Com apenas 9 meses embarcou para as Flores e foi viver para o Mosteiro onde a mãe tinha sido colocada como regente escolar.
O Zé acompanhava a mãe quando ela ia para a escola, por isso diz, com graça e com toda a propriedade, que a sua frequência escolar se iniciou ainda antes de saber andar ou falar.
Não admira que tenha começado a ler e escrever muito cedo (apenas com 4 ou 5 anos).                                                                               
Como o Zé fosse pequeno e o quadro demasiado alto para ele o pai decidiu cortar o mal pela raíz:  foi à escola …e serrou os pés do quadro para que ele pudesse escrever…
E eis como um gesto de pura carpintaria e amor paternal pode muito bem ter despoletado precocemente a veia literária do nosso amigo.
O gosto pela leitura, esse, foi marcado pelas idas à biblioteca itinerante da Calouste Gulbenkian que ia de freguesia em freguesia, de 15 em 15 dias. Uma periodicidade que no caso do nosso amigo revelava um claro desajuste entre a oferta e a procura, pois creio não me enganar se disser que ele num abrir e fechar de olhos dava cabo do stock, que salvo erro era de 5 livros por cada leitor.
Aos 10 anos, já com muitos livros na bagagem, o Zé emigrou para o Canadá embora tivesse regressado ao Mosteiro passado pouco mais de um ano.
Frequentou então o ciclo preparatório no ensino particular, nas Lajes, com o Padre Luís.
Ficava hospedado na vila e com apenas 12 anos já só ia a casa ao fim de semana (porque apesar de ficar a 10km…não havia transportes)
Em 1974, foi estudar para a Horta, onde frequentou o Liceu até ao sétimo ano, o antigo curso complementar dos Liceus, na área de letras. Foi aí que fomos colegas, o que não tem nada de extraordinário, até porque somos quase da mesma idade.
O que é verdadeiramente extraordinário é o facto do Zé ter sido praticamente colega…da mãe… que como já vimos era regente escolar mas que se viu obrigada na altura a voltar estudar para continuar a lecionar .                                                                                   
Quando acabou o liceu o Zé foi dar aulas (de português e inglês)  na escola preparatória de Santa Cruz e por pouco não fomos colegas de novo, desta vez como professores, já que também passei por lá.
Em 1980 foi para a tropa , primeiro para S.Miguel, por engano, e depois, como deveria ter acontecido logo, foi para Mafra para o curso de oficiais. E mais uma vez por muito pouco não fomos colegas, agora na tropa, já que também passei episodicamente por Mafra.
Depois da tropa ainda deu aulas de inglês nas Lajes do Pico e mais uma vez estivemos quase a ser colegas, já que um pouco mais tarde também lecionei nessa escola, curiosamente a mesma disciplina. Sei que isto já começa a soar a perseguição, mas juro que foi a última vez que os nossos percursos «quase se cruzaram».
A partir daí passou a ser funcionário da CGD ( profissão que continua a desempenhar) ,primeiro em Santa Cruz das Flores, tendo chegado a responsável pela agência, depois na Horta e finalmente na Madalena do Pico, terra Natal da sua mulher. Nessa altura já era pai da Fabiana e da Soraia. (que está ali a tirar fotografias).
Pelo meio da sua atividade como bancário ainda recusou um convite do PSD que o podia ter levado a ocupar o lugar de deputado na ALRA pelas Flores , mas aceitaria mais tarde candidatar-se  a presidente da Ass. Municipal de Santa Cruz também pelo PSD, cargo para que seria eleito.
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O José diz que lê compulsivamente e prefere um bom livro a um bom filme. Gosta de muitos e diversos autores, entre eles  Eça de Queirós (de quem falarei com alguma insistência mais à frente), José Rodrigues dos Santos, Miguel Sousa Tavares, Dias de Melo,Hemingway e Agatha Christie, entre muitos outros.
Para além do tempo que dedica à leitura ainda arranja espaço para as suas crónicas no Jornal do Pico, colaboração que vem mantendo desde a sua fundação  em Abril de 2004.
Espera que este romance - “A Renúncia” - seja o primeiro de  muitos outros  se Deus lhe  der vida e saúde.
Diz que não é, nem pretende, ser uma obra-prima pois não tem preparação para tal,mas garante que foi escrito com o coração e com a imaginação.    
Diz ainda o nosso autor que não fez qualquer esboço da história nem sequer planeou o fim … uma ausência de «projeto de arquitetura» que levou a uma derrapagem na obra; o livro chegou a estar parado durante semanas, à procura de um rumo a dar à história.
Nada que deva preocupar muito um jovem escritor, já que este mal do chamado «bloqueio» atinge até os mais experientes. Seria caso para dizer que escritor que nunca teve um bloqueio não é escritor.
Ainda ontem ouvi na TV João Tordo, um dos valores da nova geração de escritores, dizer que passara por um longo período em que, pura e simplesmente, não conseguia escrever. Isto, já depois de vencer o Prémio Saramago. Diz que passava o tempo no sofá a empanturrar-se com batatas fritas, pizzas e doses cavalares da série «Doctor House». Até que um dia pegou nesse comportamento obsessivo/ depressivo para construir                     um personagem. E foi assim que começou a escrever o «Bom Inverno», livro que viria a ser um «best seller». 
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Quando o José da Costa me convidou para participar na apresentação do seu romance «A Renúncia»… pensei se não deveria ser eu mesmo a renunciar… Porque não sou crítico literário, nem missionário, nem juiz.
Digo isto lembrando Machado de Assis que afirmava ser o «critico literário uma espécie de missionário que dirá a verdade, e nada mais que a verdade, sobre determinada obra literária.
E que o papel do crítico é portar-se como um juiz, ou seja deve julgar o valor da obra literária»
 Para além de não ser crítico literário (nem missionário, nem juiz), tive que dizer ao José a verdade e nada mais que a verdade:  ainda não tinha lido o livro. Confessei esta verdade, um pouco envergonhado, na esperança do José não me ajuizar mal. E acho que estou perdoado.
Mesmo assim, acrescento agora em minha legítima defesa que  sabia da existência do livro pelas notícias, mas ainda não me tinha deparado com ele em nenhuma livraria; o facto de ter em casa muitos livros em lista de espera e o facto do livro do José ser assim para o grandinho (480 páginas) foram  também razões para ir adiando essa leitura…Sem desprimor para o José, a verdade é que já muito raramente leio livros com tantas páginas…
Já fui um leitor inveterado, e compulsivo como ele,…mas hoje para mal dos meus pecados sou muito mais «teledependente» e por isso leio bastante menos livros do que no tempo da saudosa e itinerante biblioteca da Calouste Gulbenkian.               
Como dizia, eu não sou crítico literário e não vou por isso armar-me em crítico literário…
Mas já é tempo de falar sobre o romance de estreia do José da Costa porque afinal foi esse o desafio que me foi lançado e que eu, temerariamente, aceitei.
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Mal soube do romance do José e do seu enredo pensei de imediato no «Crime do padre Amaro». Devorei essa obra de Eça de Queirós enquanto estudante no liceu.
Li-o muito mais avidamente do que haveria de ler, por obrigação curricular, «Os Maias» do mesmo Eça.
A primeira questão que se poderia colocar de imediato era se haveria, mesmo que remotamente, algum plágio.                                                                       
Eu não estava a imaginar o José nessa prática, por isso nem foi preciso chegar ao fim do seu romance para perceber que essa hipótese não se colocava de todo.                                         
Acredito que antes de Eça muitos escreveram e depois do José  muitos outros hão-de escrever sobre as provações e privações a que estão sujeitos os padres.
Isto, claro está, se perdurar a imposição do celibato para quem quer abraçar a vocação sacerdotal, impedindo assim os padres de também abraçarem - mais ou menos afetuosamente -  as mulheres, ou os homens, se não quisermos ser homofóbicos.
Para encerrar o capítulo do plágio, que como já vimos é crime que não podemos imputar ao José da Costa ,                   
gostaria apenas  - a título de curiosidade - de frisar que o próprio Eça com o seu Padre Amaro, foi acusado de tal crime!
Machado de Assis acusou-o de plagiar Émile Zola que escreveu «La Faute de l'abbé Mouret», (A culpa do abade Mouret) obra que trata também da vida de um padre dividido entre a sua vocação religiosa e o amor de uma mulher.
Há no entanto um pequenino pormenor que deita por terra a tese de Machado de Assis: é que o livro de Zola surge depois do «Crime do Padre Amaro» …
Curiosamente esse foi o primeiro romance de Eça de Queirós [já que «O mistério da estrada de Sintra» tinha sido escrito a quatro mãos, com Ramalho Ortigão] e «A Renúncia» é também o primeiro romance do José da Costa. Quem sabe se esta coincidência não será premonitória para uma longa e profícua atividade literária.
Em ambos os livros se fala dos desvios de jovens padres do caminho de Deus, e das leis da santa madre igreja… mas tirando a atração proibida pelo sexo oposto não vislumbrei mais nenhuma semelhança entre a paixão do padre Joaquim pela Maria do Rosário e a paixão do padre Amaro pela Amélia.
Como sabem também, o «Crime do Padre Amaro» já teve algumas adaptações ao cinema…E quem sabe o mesmo não acontecerá um dia também à «Renúncia», pois a última coisa a que devemos renunciar é ao sonho e à ambição.
Ora, a ambição do José da Costa foi escrever um romance, e depois de ter sido bem sucedido, manterá a ambição e o sonho de escrever muitos mais.                                                                       
Com o seu primeiro romance,  José da Costa não procura criar qualquer polémica ou afrontar a igreja ou qualquer outra entidade.
Já a obra de Eça de Queirós gerou, na altura, muita polémica ao criticar ferozmente o clero e ao abordar também outro tabu da época: a sexualidade.
Tal provocou  grandes protestos por parte da Igreja Católica, não só em Portugal, mas até no Vaticano.                                                                                                     
Intenções e premeditações à parte, é preciso não esquecer também que o «Crime do Padre Amaro»  foi escrito nos finais do século XIX e a «Renúncia»  é já do século XXI, tendo a primeira edição saído apenas no ano passado.                                                                  
Diz-se que Eça de Queirós terá aproveitado o facto de ser nomeado administrador do concelho de Leiria para aí durante seis meses, conhecer e estudar aquele que seria o cenário de
«O Crime do Padre Amaro».
Já o nosso autor escolheu como cenário uma aldeia algures no norte do país onde a ação se desenrola  presumivelmente na década de 60 do século passado. Ora não tendo residido nessa paróquia que acolhe o padre Joaquim, imaginou-a à semelhança do mundo que conhece melhor, que é o nosso mundo rural açoriano, e não é por isso que a história deixa de ser verosímil.
Por cá, tal como no resto do país profundo e rural, e antes de Abril ser mês de cravos, a trindade constituída pelo regedor, professor e padre asfixiava o quotidiano das populações isoladas e maioritariamente iletradas…                                                      
Na minha leitura [e o meu amigo perdoar-me-á se a achar demasiado enviesada],na minha leitura, dizia, esta opção de deslocalizar o cenário da intriga para longe da nossa porta pode ser justificada pelo facto de quase todos nós conhecermos, de forma mais ou menos consumada, histórias de padres que tiveram alguma dificuldade em renunciar às tentações de um corpo … para além do litúrgico corpo de Cristo. 
Se o cenário da «Renúncia» se restringisse aos horizontes do Mosteiro, na ilha das Flores , por exemplo, não haveria de faltar quem visse no padre Joaquim, criado pelo José da Costa, um personagem da vida real que tivesse numa determinada época, mais ou menos longínqua, sucumbido a um rabo de saia.
[O novo Papa, Francisco, num livro que foi lançado ainda ontem em Lisboa, confessa que enquanto seminarista ficou deslumbrado com uma rapariga - pela sua beleza e pela sua «luz intelectual»…ficou de tal modo baralhado (ou encandeado) que não conseguiu rezar durante uma semana, porque sempre que o ia fazer a rapariga surgia na sua cabeça].    
*****
Não faço a  mínima ideia se estes foram assuntos que alguma vez tenham atormentado o padre Nunes da Rosa.
O que sei é que Nunes da Rosa nasceu na Califórnia em 1871, curiosamente  no mesmo ano em que nascia nas Flores um futuro colega do liceu da Horta, de nome Roberto de Mesquita, e, mais uma curiosidade, no mesmo ano em que Eça de Queirós escrevia «O crime do padre Amaro» !?
Mas tal como José da Costa não é faialense pelo facto de ter nascido no Faial, Nunes da Rosa também não é             
americano por ter nascido na América. É sem dúvida açoriano e picoense pois era filho de pais da ilha montanha que regressaram ao Pico, quando ele tinha apenas 5 anos.
A minha referência a Nunes da Rosa tem a ver com o facto de ele ter iniciado a sua vida como sacerdote aos 22 anos no Mosteiro (entre 1893-1896) e de ter sido também um escritor. Um contista de reconhecidos méritos que escreveu «Pastorais do  Mosteiro» e «Gente das Ilhas».
Revisito Nunes da Rosa também  como pretexto para referir mais esta coincidência:    
José da Costa estreou-se nas lides literárias em 2001 com um conto  - «Mero a Caso» - , tendo sido incentivado  a tal pelo escritor picoense , Dias de Melo…                                        
Esse conto – que relata uma história passada na freguesia do Mosteiro, numa mistura de ficção e realidade  era para ter inaugurado, mais precocemente, o seu percurso de escritor, mas como reconhece o seu autor não passou, então, de uma aventura.
Ora a dura realidade dos candidatos a escritores é que um livro não nasce apenas da inspiração. É preciso também alguma …transpiração.
Recentemente  participei num workshop de escrita criativa e retive um conselho que pode servir para todos os que alimentam o sonho de escrever:
«Trabalha…e quando a inspiração chegar há-de encontrar-te a trabalhar».                                                                                          
Estou certo que o José da Costa trabalhou bastante para criar esta obra.
Estou certo também que ao escrever este romance fez uma auto-aprendizagem sobre a escrita e que por isso o próximo romance será melhor que o primeiro…e o terceiro melhor que o segundo, e assim sucessivamente.
Seja como for o José da Costa já fez o que eu - e muitos de nós, presumo - sonhamos fazer um dia: escrever um livro. Uma tarefa que se pode revelar penosa, mas que ao mesmo tempo pode ser fonte de prazer. E que prazer!
Em ‘Um Amor Feliz’ David Mourão-Ferreira, falava assim sobre a Maravilha que Deve Ser Escrever um Livro :
«a invenção dentro da memória;
a memória dentro da invenção;
e toda essa cavalgada de uma grande fuga,
todo esse prodígio de umas poligâmicas núpcias, secretas e arrebatadas, com a feminina multidão das palavras:
as que se entregam, as que se esquivam;
as que é preciso perseguir, seduzir, ludibriar;
as que por fim se deixam capturar, palpar, despir, penetrar e sorver,  assim proporcionando - antes de se evaporarem -  as horas supremas de um amor feliz.
Não há matéria mais carnalmente incorpórea;
nem outra mais disposta a, por amor, ser fecundada.
Como se pode interpretar de outro modo
esse velho lugar-comum de
«ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro»?                                          
Ora o José da Costa já foi pai duas vezes, já plantou não uma mas várias árvores e já escreveu não um mas dois livros.
Só não sei se já cumpriu a variante açoriana desse lugar comum da plena realização do homem, criada pelo Victor Rui Dores:
Ler ‘Mau Tempo no Canal’, subir a montanha do Pico e descer a furna do enxofre?
Mas ainda vai muito a tempo de fazer tudo isso e de continuar a escrever mais romances.
Espero que o faça, desde que isso o faça feliz e felizes os seus leitores. Por mim, prometo ser um leitor mais atento  quando sair o novo romance.
E peço desculpa a todos pela minha fraca prestação como comentador, mas é óbvio que a culpa não é minha mas do José da Costa; é que, como dizia Camus, quem escreve assim de um modo tão claro tem leitores e não comentadores. 
Termino, esperando não vos ter maçado muito, e não ter cometido o pecado daqueles oradores que, como alguém dizia, nos dão em comprimento aquilo que lhes falta em profundidade. Sei que não fui muito profundo, espero não ter sido muito comprido.
Muito obrigado…e parabéns ao Zé da Costa".

Herberto Gomes                              
P.Delgada , 20 de Abril de 2013                                                                                            

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Intervenção da Associação Amigos da Ilha das Flores no 7º Encontro Cultural da AAIF

"Porque a paixão que nos une é maior que o mar que nos separa", intervenção de António Nascimento, da Associação Amigos da Ilha das Flores, no 7º Encontro Cultural da AAIF 13.04.2013



Antes da “ordem do dia” um aviso prévio…
É costume dizer-se que “equipa” que joga em casa tem certa vantagem sobre quem a visita… Seguindo essa lógica ser anfitrião implica em alguma superioridade… Isto considerando que as forças estão equilibradas…
Isto aqui não acontece… Perante a superioridade inequívoca dos nossos simpáticos visitantes e convidados o factor “casa” não conta… É nulo, absolutamente nulo…
E reportando-me a uma passagem bíblica que todos nós já ouvimos muitas vezes – “os últimos serão os primeiros e os primeiros serão últimos”… Cito-a ao contrário… Aqui os últimos são mesmo os últimos…
Deveria, como é comum nestas ocasiões, dirigir-me aos Ilustres Convidados, de forma protocolar… Senhora Representante de Sua Excia o Presidente do Governo Regional… Exmo. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada… Senhor Deputado… Senhora Professora Doutora… E daí por diante…
Mas, pedindo desde já desculpa, vou fazê-lo à minha maneira…

MEUS AMIGOS…
Ou então… MEUS QUERIDOS AMIGOS…
E melhor ainda… AMIGOS DO CORAÇÃO… Isto, porque entendo, que a AMIZADE que não vem e não está no CORAÇÃO é qualquer coisa menos amizade… Pode ser um sentimento ou uma simpatia… Nunca uma AMIZADE com letra maiúscula… E olhando à minha volta só vejo pessoas que estão de facto dentro do meu CORAÇÃO… 
Há algum tempo li, em qualquer parte, um provérbio que suponho ser chinês – há tanta chinesice por aí… Era mais ou menos assim: “quando fores falar certifica-te bem se aquilo que vais dizer é tão importante como o silêncio que vais quebrar”…
Eu não tenho bem a certeza se os “chinocas” têm razão… Mas admitindo que eles têm mesmo razão, só para os chatear vou continuar… 
E peço a DEUS que este sentimento não se transponha para vós, pois seria mais um negócio de sucesso para os nossos amigos de “olhos em bico”…
Também, como dizem alguns cronistas da comunicação social escrita, ”não vou utilizar as regras do acordo ortográfico” por opção minha, pois não concordo com elas… Portanto qualquer erro gramatical a culpa é dos “fazedores” de tais regras, para o desfecho das quais não foi tido nem achado… Mas se der algum “pontapé na gramática”, como dizemos às vezes, aí a culpa é partilhada…
Por mim que aceitei esta responsabilidade, que está muito para além da minha capacidade e pela minha simpática direcção que me colocou esta “batata quente” nas mãos…
  
Sou natural da mais “ocidental praia”, da mais ocidental Ilha Açoriana – a Fajã Grande… Ali nasci numa modesta casa de lavrador, precisamente, voltada para Oeste, no ano de 1941 – 20 de Setembro. Tive uma irmãzinha – a Madalena - que faleceu com 10 meses no dia em que eu fiz 3 anos… Sempre me considerei e me consideraram, filho único com todas as vantagens e as muitas desvantagens que tal situação implica…
Sou casado com a Maria Valentina, faialense e adepta ferrenha do Atlético, que “descobri” – foi a melhor e mais valiosa descoberta de toda a minha vida – no dia 19 de Março de 1966, quando depois de uma ausência de quase 4 anos, em consequência do serviço militar, que me levou a lugares e a situações” que nunca imaginaria… Era o dia da festa de S. José, patrono de nossa terra… Vi aquele “borracho”, então com 19 anos, na procissão… Perguntei a meu pai quem era, que me disse que era a senhora professora… É claro que não fiquei logo apaixonado mas impressionado com aquele “charme”… Daí ao namoro foi o espaço de um mês… Mas não foi fácil…
Casamos três anos e meio depois… DEUS deu-nos três filhos – duas filhas e um filho, de que muito nos orgulhamos… Estes por sua vez já nos presentearam com seis netos que, modéstia à parte, são os netos mais lindos do mundo…
Fui criado com mimos demais… Com todas as vontades e mais algumas, o que não era, de modo algum, benéfico… Bem pelo contrário… E eu aproveitei-me bem dessa situação e fazia o que queria e me apetecia… Usava e abusava desse “estatuto”… Minha avó paterna a duas tias solteiras que viviam connosco faziam tudo o que eu queria e mais alguma coisa…
Mas no que toca a meu pai e minha mãe a conversa era outra… Estes não me davam margem para as minhas “más criações”, como então se dizia… A minha mãe era pequenina mas tinha uma “genica”, levada da breca… Não brincava em serviço… Naquilo em que a minha avó e tias eram permissivas, ela compensava… Levava “porrada velha” em que predominava as “taponas” e os “beliscões torcidos”…
Meu pai era de poucas palavras mas de olhares e gestos que diziam tudo… Não me lembro dele me ter dado um beijo enquanto fui menino… Eu não compreendia e tinha muita pena, pois via os meus primos abraçar e beijar os seus pais e o meu empurrava-me quando tentava fazê-lo… Só muito mais tarde soube o motivo desse aparente desamor…Meu pai aos 32 anos, tinha eu alguns meses, contraiu uma doença que daquela altura era incurável e era altamente transmissível… A tuberculose… Tratou-se o melhor que era possível naquele tempo e foi dos muito poucos que sobreviveu… Teve uma vida difícil e limitada pelas sequelas daquela doença, mas graças a DEUS viveu até aos 72 anos…Tinha de deslocar-se ano sim ano não a Angra do Heroísmo ou Ponta Delgada, para consulta, exames de rotina e aquisição dos novos medicamentos que entretanto foram aparecendo… Não havia qualquer comparticipação estatal… Era tudo pago, pelo próprio desde as passagens ao alojamento e tudo o mais… Havia pessoas que vendiam algumas terras para tratar as suas doenças… E hoje reclama-se a torto e a direito da pouca e fraca ajuda da Segurança Social…
Quando me falam da crise que hoje vivemos eu, sinceramente, fico incomodado… Esta crise comparada com a que vivemos nas décadas dos anos 40, 50 e 60 na Ilha das Flores é uma brincadeira… Imaginam o que estar um mês sem qualquer meio de transporte, à espera de bom tempo e que o Carvalho Araújo e o Lima, chegassem às Flores, com bens essenciais esgotados e/ou racionados…
Não sou com certeza a pessoa certa para falar da crise, mas a situação que vivemos, faz-me recordar uma passagem bíblica do Antigo Testamento que todos se devem recordar… “O JOSÉ DO EGIPTO”…
É mais ou menos assim, em traços largos… O Faraó teve um sonho… Sonhou que havia sete vacas gordas e bem tratadas numa pastagem… Subitamente surgiram sete vacas magras, esqueléticas e famintas que devoram aquelas…
Teve ainda o Faraó outro sonho…
Sonhou que num campo de trigo havia sete espigas gradas e belas que subiam de uma mesma haste… Entretanto apareceram sete espigas mirradas e raquíticas que engoliram as espigas gradas e cheias… Alguém lhe disse que nas suas prisões havia um jovem hebreu que decifrava sonhos… Era o José do Egipto, filho de Jacob…
O Faraó mandou-o chamar e este disse-lhe, então, que as sete vacas gordas e as sete espigas gradas e cheias significavam sete anos de grande abundância e as vacas magras e as espigas mirradas, correspondiam a sete anos de carestia e miséria… Portanto que Faraó tivesse era realidade em conta… E o Faraó nomeou-o logo “ministro das finanças”… Vieram os sete anos de abundância, foi um tal amealhar e guardar para o que vinha a seguir e quando chegou a “crise” eles estavam bem prevenidos…
Nós não tivemos nenhum José do Egipto para no tempo das “vacas gordas e das espigas gradas”, nos alertar para o que vinha a seguir mas tivemos a Doutora Manuela Ferreira Leite – que mulher de feia, meu DEUS – ela nas Flores ficava solteira de certeza - e o Velho do Restelo Medina Carreira, que deram umas dicas em que ninguém acreditou…
E construíram-se imensos elefantes brancos, hipopótamos cor-de-rosa e até girafas azuis e o “sonho dourado” ficou-se por aí… Mas não foi só a nível governamental… Foi também a nível das famílias… Nós, eu e a Valentina, se desde há sete ou dez anos tivéssemos poupado, pelo menos, os nossos subsídios de férias e Natal, não estávamos tesos como agora estamos…
  
“PORQUE A PAIXÃO QUE NOS UNE É MAIOR DO QUE MAR QUE NOS SEPARA”…
É o “mote” do 7º Encontro Cultural da Ilha das Flores…
Eu ousaria acrescentar-lhe mais alguma coisa… O mar que nos separa e une, também nos “tempera” com o seu SAL, nos “revigora e dá força” com as suas ONDAS, nos “apaixona” pela sua BELEZA, ora calma e tranquila, ora violenta e implacável…
Costumamos dizer, em determinadas situações e perante certos acontecimentos: - FOI APENAS UMA COINCIDÊNCIA – FOI UMA QUESTÃO DE SORTE – ou então, FOI POR MERO ACASO…
Há algum tempo, li em qualquer lado, um escrito de não sei quem, que me levou a concluir que não é exactamente assim… Pelo menos para quem tem FÉ… E eu tenho FÉ,,,
A COINCIDÊNCIA, a SORTE. o ACASO, são situações que DEUS, inventa quando quer ficar no anonimato…
 Vou tentar prová-lo… Mas têm de ter FÉ também… Se não nada feito…
Vou procurar dar uma certa ordem cronológica aos factos…
Quando tinha 11 anos e acabada a instrução primária – nas Flores não havia ensino secundário naquele tempo – meus pais tentaram a todo o custo, colocar-me no Seminário…
Era uma saída… Se não a única, pelo menos, a mais prática e económica
Depois de diversas tentativas para me convencer – eu não queria estudar “nem a pau “e, muito menos, ser padre – levaram-me de visita a casa do Senhor Padre Pimentel, para ser ele a dar-me a volta… Depois de uma longa conversa de “pé de orelha” no seu escritório – minha mãe tinha ficado na sala de visitas com a D. Maria e a Emilhinha, o Senhor regressa à sala comigo e já absolutamente convencido e diz então para minha mãe: “Ó Oliviazinha julgo que o sacerdócio não é a vocação do nosso António”… Que alívio meu DEUS…
Primeira coincidência que vai ao ar – se vou para Padre, a Valentina tinha ido para freira… Certeza absoluta…
Um ano depois, meu pai que tinha um amigo de infância na Horta que por sua vez tinha um filho mais novo um ano, combinaram entre si que eu viria para o Faial estudar…
Ficaria em casa desse amigo de meu pai estudaria com o filho, a despesa seria mínima – naquele tempo o dinheiro era escasso – e tudo ficaria resolvido…
Não fazem ideia do filme… Eu gritava, berrava com um bezerro desmamado, não fazem ideia… Mas tinha aliadas… A minha avó e tias estavam pelo meu lado… Não queriam que o seu menino fosse embora para o Faial… Depois de muita luta lá consegui safar-me…
Eu queria era “esgravatar” nas terras, andar atrás das vacas, bezerros, porcos, coelhos cães, gatos e galinhas… Tudo o que era “bichinho” me agradava…
Assim fiquei por ali até aos 20 anos… Depois veio o serviço militar – quatro anos é muito tempo – e ao parar na Terceira encontrei alguns rapazes do meu tempo que tinha decidido estudar depois da tropa… 
Eu não me achava capaz, depois de 15 anos sem estudar… É certo que sempre lera muito e tinha uma certa cultura geral…
Mas o francês e o inglês… Lá me convenceram… Em menos de três anos lá consegui o 5º ano dos Liceus, que me deu possibilidade de ingressar na função pública…
Um dos meus principais animadores chamava-se José Noia… Ele dizia… Fazes isso com uma “perna às costas”… Não custa nada… Mas custou… O José Noia é o pai da nossa querida Sarita…

Outra coincidência… Não creio…

Nos princípios dos anos 50 – talvez 52/53 – o troço da estrada do porto da Fajã à Ribeira do Ferreiro foi adjudicado a uma Empresa de Construção do Continente – Pinto & Santos Lda. – creio eu… Pela primeira vez vimos um camião na nossa freguesia que veio pelo mar num daquele batelões que faziam as cargas e descargas dos navios… Como foi difícil pô-lo em terra… Ainda estou a ver… Toda a gente agarrada a um cabo a puxar ora num sentido ora noutro… Ao volante um tal Senhor Manuel Pinto que dizia cada palavrão que era de bradar aos céus…
Essa Empresa era liderada pelo Senhor Pedro Pinto, que era nem mais nem menos que o avô do Francisco… Eu gosto mais de lhe chamar Delfim… É nome do pai que é um amigo do peito e foi meu colega nos Tribunais e chegamos a trabalhar juntos na Praia da Vitória…
Será por acaso que o Doutor Francisco Pinto está hoje connosco…

Nos fins da década 50 e princípios dos anos 60, além das festas religiosas das nossas freguesias e vilas, havia uma que talvez por se realizar no maior centro populacional da ilha das Flores tinha uma maior afluência e grande participação…
Eram as Festas do Espirito Santo da Praça, em Santa Cruz… Sempre que podia e me era permitido lá ia… Numa destas oportunidades duranta os nossos passeios nocturnos em volta do largo – como se faz aqui no Campo de S. Francisco – deparei com uma miúda muito gira, mas bastante tímida… Tentei dizer-lhe uns “piropos” mas ela não me ligava nem um pouco… Alguém então me alertou… Tem cuidado porque se o pai dela sabe trata-te da saúde… Eu conhecia bem o pai e ele não era para brincadeiras… Era o Senhor Augusto Ferreira, pai da Maria Olívia, por sua vez mãe da nossa “charmosa” presidente…
Foi ou não foi uma sorte eu não me ter adiantado na minha tentativa de engate… E se o Augusto Ferreira me tratasse mesmo da saúde…
      
Ainda outro acaso…
Há cerca de 30 anos compramos um lote de terreno no Calço da Furna – Fajã de Baixo - para construir, como veio a acontecer, a nossa casa… O proprietário era o Senhor Mariano Álvares Cabral Miranda… No contrato promessa de compra e venda, datado de um de Fevereiro de 1983, aquele senhor foi representado pela sua filha a Senhora Doutora Maria Luísa Estrela Rego Miranda Chandler, aqui presente…
Tenho aqui o documento…
Quero ainda acrescentar que o nome da Doutora Chandler reúne duas famílias que nos são muito queridas e a quem devemos algum do nosso crescimento pessoal e espiritual… Henry e Gina Chandler e Conceição e José Estrela Rego, designadamente através do Movimento dos Cursilhos de Cristandade…

Isto aconteceu por acaso…

Finalmente, no último fim-de-semana mais exactamente de 4 a 8 de Abril, estive em Santa Maria… Com mais cinco micaelenses fomos participar num Cursilho de Cristandade…
Já conhecia o meio e as pessoas pois foi a terceira vez que ali me desloquei nestas lides apostólicas… Gente muito simpática que nos trata de um maneira incrivelmente fraterna… E têm uma culinária admirável… A Valentina diz que eu engordo uns quilitos sempre que lá vou… Adoro as sopas de nabo e o ensopado de borrego, que já degustei num dos seus jantares nas Portas do Mar… Os “biscoitos de orelha” e as “cavacas” também me agradam de sobremaneira…
Coincidência a semana passada estar em Santa Maria a falar de DEUS a um grupo de marinhenses e hoje estar aqui a meter DEUS no meio de todos nós… Também não creio… ELE está de facto no meio de NÓS… Tenho a certeza…

NADA ACONTECE POR ACASO… Será que ficamos que convencidos que as COINCIDÊNCIAS, a SORTE e o ACASO, são de facto cenários que DEUS inventa quando quer ficar escondido no anonimato…

Falando agora da nossa Associação… E já não é sem tempo… Vejo muita gente a bocejar, mas garanto que vou ser breve, embora não acredite muito na minha palavra neste contexto…
Porque criamos e qual o objectivo da nossa Associação…
Foi criada para servir… Quem não vive para servir não serve para viver… É este e só este o nosso lema…
O seu objecto “é desenvolver actividades que promovam o bem estar dos naturais das Flores e daqueles com quem vivem, bem como incrementar o intercâmbio com a Ilha das Flores, realizando acções culturais, sociais  ou desportivas e promovendo a própria Ilha na globalidade do seu contexto regional, nacional e ultraperiférico na União Europeia”…
É um objectivo ambicioso como podem ver…
Temos conseguido alguns, outros nem tanto… Mas norteia-nos algumas regras que temos de acionar sempre que necessário…
- Coragem para mudar o que pode e deve ser mudado…
- Serenidade para aceitar aquilo que não pode ou não deve ser mudado…
- Sabedoria para ver a diferença e distinguir uma coisa da outra, ou seja, o que não pode e não deve ser mudado…

A propósito de mudança gostaria, se me é permitido, de sugerir uma… Porque é que a nossa Associação não passa a ser “ASSOCIAÇÃO DOS AMIGOS DAS FLORES E DO CORVO”… É que temos corvinos de muito peso nesta Ilha… E muito activos… O Rafael Nascimento – é Nascimento mas não é meu primo – é disso um exemplo… Sabemos que há burocracias a ultrapassar mas confio no provir…
Saudades da Ilha… São tantas… Por isso regressamos muitas vezes às origens… Isto revigora-nos… Beber a água viva das nascentes, dá-nos genica e purifica-nos… Anima e fortalece a nossa PAIXÃO, essa PAIXÃO que aqui nos une e alimenta…
Os nossos saborosos que de vez em quando partilhamos, os nossos costumes que recordamos e praticamos… Às vezes eu a Paula Amaral e outros mais, até falamos à “moda das Flores”… Os torneios de “sueca”, “King”, “dominó” e “matraquilhos”, animam os nossos serões…
Ver jogos de futebol – quem não é do Benfica está em minoria declarada – e discutir as jogadas e as faltas que o árbitro marca ou deixa de marcar…

Porque se migra…Porque se deixa a nossa terra… Ela é pequena é certo e não tem todas as respostas que gostaríamos que tivesse… Mas no que toca à sua beleza e fascínio ela é ilimitada… Daí termos de a deixar fisicamente… O nosso coração fica lá mas a Ilha vem connosco…
Temos, todavia, de dizê-lo com toda a verdade e franqueza… Estamos muito bem em terras do Arcanjo… A princípio há uma certa reserva… Natural desconfiança… Quem é este que aí vem… Mas depois são fixes… O micaelense é amigo do seu amigo… Posso afirmá-lo e demonstrá-lo… Sabem receber e recebem muito bem…
Quem tem experiência das Romarias como eu e o Fernando, pode falar dos momentos verdadeiramente fraternos que se vivemos nassas ocasiões… 

 A nossa Associação foi fundada a 19 de Fevereiro de 2003… Tudo começou no escritório de advogado de um dos nossos principais impulsionadores, Doutor Luís Paulo Elias Pereira, actual Presidente da actual Assembleia Geral… Foram 13 os fundadores… O número 13 já deixara de ser um número de “azar” desde 13 de Maio de 1917 – em Fátima – nos anos 60 com os 13 resultados certos no “totobola” e nós confirmamos o positivismo desse número, com os nossos 13 fundadores… Aliás hoje é o dia 13 de Abril…
Coincidência… Não me parece…

A AAIF foi declarada “Associação de Utilidade Pública”, em 21 de Setembro de 2009…
Uma ressalva que sempre esteve, está e estará na nossa génese…
Nunca tivemos, não temos e não teremos, qualquer conotação política…Tivemos, temos e queremos continuar a ter amigos políticos e na política… Mas só isto e apenas isto…
Estamos muito agradecidos a todos os que ajudaram a construir a nossa Associação por que sem essa ajuda não tínhamos chegado aqui…
Cito o Governo Regional, alguns dos seus Secretários, as Câmaras Municipais de Santa Cruz e Lajes e a de Ponta Delgada, algumas juntas de freguesia das Flores e a de S. Pedro aqui em S. Miguel, algumas Empresas florentinas e locais… O nosso obrigado a todos e queremos continuar a contar convosco para prosseguir o nosso rumo…
A nossa sede foi adquirida em 2004 e inaugurada em Outubro desse mesmo Ano…
Temos actualmente 310 sócios e as quotas estão quase – disse quase – todas em dia…
Em Maio de 2005, quando tivemos a nossa sede com condições de exercer um, senão a seu principal objectivo, passamos a receber pessoas das Flores que se deslocavam a S. Miguel por razões de saúde, a fim de consultarem médico e obterem os respectivos diagnósticos e tratamentos…
Até esta data foram recebidos e apoiados 1090 florentinos e entre eles, três bebés nascidos no HDES, que passaram a sua primeira noite pós-hospital na nossa sede…
Os números valem o que valem e para nós o que conta são as pessoas, mas este número equivale a mais de um quarto da população das Flores… Alguns terão sido repetidos é certo… A uma média de três dias por pessoa daria, quase 3 300…
Isto num hotel ou residencial a um preço médio de 30.00 euros, somaria + ou - 90 900 euros… Foi quanto a nossa Associação contribuiu para com os seus irmãos florentinos e estamos muito felizes por isso… Isto é apenas estatística… E essa só interessa na medida em que nos pode ajudar a AMAR e SERVIR MELHOR, quem de nós precisar ou vier a precisar…
Não referi que as pessoas que recebemos são-nos indicadas pelas nossas Câmaras Municipais, que têm sempre conta a triagem e a informação das respectivas juntas de freguesia…

Quase a terminar e a título meramente informativo, quero dizer, creio que em primeira mão, que vamos, brevemente, criar no nosso quintal, um canil…
É que na última 5ª feira, quando eu e a minha mulher, viemos disputar o nosso último jogo do campeonato da sueca, onde defrontamos e vencemos, sem apelo nem agravo, por 2-0, os anunciados vencedores da competição, José Manuel e Pedro Mata – desculpa José Manuel a nossa imodéstia, mas tínhamos que dizer isto para que o nosso prestígio fique público - ia então dizendo que na 5ª feira passada, deparamos com um simpático casal, que aqui estava de passagem, que tinha uma linda cadelinha, da raça “labrador”, adquirida no mercado local, a que deram o nome de “NINA”… Será influência da telenovela brasileira “AVENIDA BRASIL”…
Penso que se justifica, plenamente, o investimento no canil…

Vou acabar porque se há pedaço bocejavam, agora já dormem…
Antes porém mais uma história…

Um dos meus professores da Escola Primária, foi o Senhor Orlando Lourenço Soares, natural de Ponta Delgada… Era irmão João Lourenço Soares que foi faroleiro no farol nas Lajes e no Albanaz…
Era um homem fora do comum… Pintura, teatro, prosa e poesia, era com ele… Como professor nem tanto assim…
Lembro-me, porque me doeu e marcou um episódio passado na nossa Escola… Estava eu na 3ª classe…Como ia passar de classe - chama-se 3ª classe adiantada - já líamos o livro da 4ª classe…
Coube-me ler a primeira lição do livro… “SER PORTUGUÊS”… E rezava assim… “Quando alguém me perguntar a minha nacionalidade, devo sentir um orgulho santo e nobre ao responder… SOU PORTUGUÊS…
“Ser português é descender dos intrépidos lusitanos, que lutando bravamente pela sua independência venceram os afamados exércitos de Roma”…
Eu que no fim-de-semana anterior tinha estado a ouvir um relato de futebol em que o Benfica tinha dado cartas – em 1951 havia o Águas, o Caiado, o Salvador o Palmeiro, Ângelo, o Artur, o Costa Pereira, entre outros, que eram mesmo muito bons, bem melhores do que estes estrangeiros de agora – e o meu entusiasmo levou-me ao ponto de substituir o SER PORTUGUÊS por SER DO BENFICA…
No parágrafo seguinte repeti a frase SER DO BENFICA…
“Ser português – SER DO BENFICA - é descender dos intrépidos lusitanos, que lutando bravamente pela sua independência venceram os afamados exércitos de Roma”…
À terceira tentativa levei uma “tapona” que até vi estrelas e fui para o meu banco chorar as mágoas…
Muito tempo depois vim a saber que o Senhor Professor Orlando - aliás regente escolar – era um doente do Sporting… Estávamos na época dos cinco violinos – Vasques e Travassos… Não me lembro dos outros…
Mas recordo uns versos que ele fez sobre a Ilha das Flores… Era assim… 
Ilha das Flores… Que vives a sonhar…
Orgulho dos Açores… Ramalhete do Mar
Ó Ilha tão linda és… Que mais linda nunca vi…
Tens o mar a teus pés… A chorar de Amor… Por ti…
A CHORAR DE AMOR POR TI…

Intervenção da Casa do Triângulo no 7º Encontro Cultural da AAIF


"Casa do Triângulo: Origem, Objetivos e Problemáticas", intervenção de Francisco Pinto, da Casa do Triângulo, no 7º Encontro Cultural da AAIF 13.04.2013


(Clique nas imagens para ampliar)










Intervenção da Associação de Marienses e Amigos da Ilha de Santa Maria no 7º Encontro Cultural da AAIF

A Ilha de Santa Maria no Contexto da Migração Interna”, intervenção de António Teixeira, da Associação de Marienses e Amigos da Ilha de Santa Maria (AMASM) no 7º Encontro Cultural da AAIF 13.04.2013




“A ilha de Santa Maria, como as restantes ilhas açorianas, são bem conhecidas como terras de emigração além-fronteiras nacionais e de destinos longínquos, particularmente rumo ao continente americano. Um fenómeno que ao longo dos séculos se processou de modos diferentes e por razões diversas, como:
  • As fomes, causadas por anos de infertilidade agrícola, um factor sempre poderoso para a deslocação das populações e que, segundo Frutuoso, determinou, já em 1579, a saída da primeira leva de emigrantes da ilha de Santa Maria, para o Brasil;
  • A pirataria e o corso, por que as nossas ilhas foram duramente fustigadas nos séculos XVI e XVII, causando grande sofrimento às populações indefesas e deslocações dramáticas para países estranhos, como aconteceu, em 1616, quando uma frota de barcos mouros turcos invadiu e saqueou a ilha de Santa Maria durante uma semana e levou 202 pessoas cativas para Argel, onde a maioria morreu;
  • A fuga à pobreza, e também ao serviço militar, e a vida dura e sem perspectivas para os jovens açorianos, que na segunda metade do século XIX optaram, muitas vezes, por emigrar clandestinamente nos barcos baleeiros de Nova Inglaterra, onde se fixaram depois de um duro e longo contrato de trabalho a bordo dos veleiros, de que se registam casos muito lembrados, ainda hoje, na ilha de Santa Maria;
  • E sobretudo o sonho dourado das terras da América e Canadá, que se processou com grande intensidade nos Açores em meados do século XX e, entre 1955 e 1985, reduziu a quase metade a população da ilha de Santa Maria.

Mas o povo dos Açores, e este é um aspecto histórico menos conhecido e menos abordado, também migrou dentro da sua própria Região - duma ilha para outra - por motivos económico-laborais e de realização pessoal e familiar, à semelhança do que acontece com a emigração para países estrangeiros.
Distingue-se, porém, desta por a terra de destino, como ficou claro, se situar dentro dos limites do próprio Arquipélago e, consequentemente, os problemas de desenraizamento e readaptação, que também lhe são inerentes, atingirem proporções menores, em face da maior afinidade social, cultural e afectiva existente entre a terra de origem e a terra de destino.
Na minha pequena ilha de Santa Maria, conheci deslocados de todas as ilhas açorianas – só uma pessoa do Corvo - que para aqui vieram residir. Este fluxo de migrantes açorianos foi fortemente condicionado por razões de trabalho e colocação profissional, em particular no «tempo dos americanos» e no apogeu do Aeroporto civil. Santa Maria tornou-se então como que «eldorado» dos Açores, a «América pequenina», como se dizia, a tal ponto que, incompreensivelmente e durante um curto período de tempo, chegou a ser exigido um termo de responsabilidade – a falada «carta de chamada» - dos residentes para aqueles que pretendiam aqui fixar-se, certamente com o fito de evitar uma superlotação demográfica julgada incomportável.
Outros profissionais não ligados aos serviços do Aeroporto procuraram igualmente Santa Maria no último século, nomeadamente jovens professoras do ensino primário, muitas das quais casaram nesta ilha, e pescadores da ilha de São Miguel, sobretudo de Vila Franca do Campo, que encontraram condições de vida mais favoráveis nesta terra, onde a densidade da população dedicada à pesca teve sempre um nível baixo. Ainda hoje, os vilafranquenses e os seus descendentes, já de segunda, terceira e quarta geração, têm uma presença marcante em Santa Maria, com repercussões não só na actividade piscatória, mas na vida social mariense em geral.
Foi, aliás, esta realidade que, a par do tradicional intercâmbio de pessoas e bens entre as duas comunidades, particularmente incrementado por uma ancestral relação comercial relacionada com o barro e a olaria e, mais recentemente, pela carreira regular e directa dos «barcos do Parece», justificou a proclamação oficial, em 1984, de Vila do Porto e Vila Franca do Campo como Vilas Irmãs.
O fenómeno da baleação – a pesca à baleia, como dizemos nos Açores - que imprimiu uma marca muito característica à vida social e cultural deste arquipélago, também deslocou para Santa Maria um número considerável de baleeiros doutras ilhas – na maioria oficiais e trancadores - muitas vezes com as suas famílias: numa primeira fase, no final do século XIX, do arquipélago de Cabo Verde e, posteriormente, a partir de 1937, da Graciosa, Faial, S. Miguel e principalmente das Lajes do Pico.
Por seu lado, o povo de Santa Maria também migrou dentro do Arquipélago, possivelmente para todas as ilhas, mas com maior incidência para as Flores, Faial, Terceira e, de modo muito especial, para a vizinha ilha de São Miguel, onde hoje reside um notável contingente de deslocados marienses, nas mais variadas actividades e situações.
Nesta ilha maior dos Açores, onde vive também um número considerável de migrantes de outras ilhas do Arquipélago, constitui um fenómeno curioso o espírito de coesão, a solidariedade e a sociabilidade que se desenvolveu e cimentou entre os deslocados provenientes da mesma ilha ou grupo geográfico de ilhas, materializado na criação de associações próprias, com os seus estatutos e objectivos de natureza sócio-cultural definidos.
Contam-se hoje três associações de ilha ou de ilhas em S. Miguel, integradas pelos naturais e amigos das mesmas: a Casa do Triângulo, a Associação Amigos da Ilha das Flores, que está a celebrar este ano o seu 10.º aniversário, e a Associação de Marienses e Amigos de Santa Maria (AMASM).
A AMASM foi criada, formalmente, a 11 de Março de 2011, tendo realizado o seu primeiro evento a 14 de Maio do mesmo ano, com um jantar de apresentação da Associação.
Entre os seus objectivos figuram, para além da promoção do convívio e união dos marienses e amigos de Santa Maria que residem em São Miguel, a divulgação da cultura e história marienses, o incremento do intercâmbio de pessoas e bens entre São Miguel e Santa Maria e, com especial realce, o fomento do turismo nesta ilha.
É ainda objectivo digno de destaque da AMASM, e alvo de especial empenhamento da sua Direcção neste momento, a aquisição e gestão duma residência, em Ponta Delgada, para apoiar estudantes marienses e doentes deslocados da ilha de Santa Maria oriundos de famílias carenciadas.
A AMASM visa ainda, no seu plano de actividades, promover a inscrição de sócios das comunidades ditas da "saudade", nomeadamente Lisboa e Faro, onde já existem alguns sócios, e Estados Unidos da América e Canadá.
Entre as actividades desenvolvidas pela AMASM, conta-se a realização de jantares convívio, muito alargados, com ementas típicas da ilha de Santa Maria, nomeadamente o já mundialmente apreciado «caldo de nabos», para angariação de fundos, que garantam a gestão corrente da Associação e a implementação dos seus objectivos.
Destacamos também a participação activa que a AMASM teve na "Semana Mariense de 2012", com encontros sobre diversas temáticas marienses, como a produção da «meloa de Santa Maria» e a baleação nesta ilha, tendo a associação desenvolvido um papel fundamental no sucesso desta iniciativa, organizada pela Associação Portas do Mar, em parceria com a Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada.
Podemos, pois, dizer que a nossa experiência associativa de ilha, nestes dois anos de existência, foi bastante positiva, pois não só dinamizou o estreitamento das relações entre os marienses, mas tem contribuído para fortalecer os laços entre as duas ilhas do oriente açoriano e constituído uma mais-valia para o enriquecimento sócio-cultural do meio onde vivemos e estamos inseridos” (Arsénio Puim)



Sr. Arsénio de Chaves Puim


Nasceu a 8 de Maio de 1936, na ilha de Santa Maria, freguesia de Santo Espírito, onde fez os estudos primários;
Frequentou depois o Seminário de Angra, onde completou o Curso de Teologia em 1960, tendo exercido a missão de pároco até 1976, em Santa Maria e São Miguel;
Foi co-fundador do Jornal «O Baluarte de Santa Maria» em 1977  e seu director até 1982, altura em que se radicou, com a sua família, em Vila Franca do Campo, onde continua a colaborar no jornal da sua terra e dá também a sua colaboração ao jornal local «A Crença»;
Exerceu funções  como autarca depois do 25 de Abril, tanto em Vila do Porto como em Vila Franca do Campo, até ao presente;
É autor de três obras sobre a sua ilha natal:
·        «A Pesca à Baleia na Ilha de Santa Maria» (2001)
·        «O Povo de Santa Maria - Seu Falar e Suas Vivências» (2008)
·        «As Ribeiras de Santa Maria - Seus Percursos e História» (2009).